OPINIÃO | A Lei da Reciprocidade Intencional e a retórica da guerra fiscal: ideologia ou interesse econômico?
A primeira questão é identificar se a medida é motivada por pragmatismo econômico ou por uma disputa simbólica

Marcelo Noronha*
A recente proposta do governo federal brasileiro de instituir uma “Lei da Reciprocidade Intencional”, como resposta à possível taxação de produtos nacionais pelo governo Trump, reacende um debate crucial: estamos diante de uma estratégia legítima de defesa comercial ou de uma disputa ideológica que pode custar caro à população?
O contexto é conhecido. Desde 2018, a política protecionista de Donald Trump tensionou relações comerciais globais, com tarifas sobre aço, alumínio e produtos agrícolas, setores-chave para o Brasil. Agora, diante da possibilidade de novas medidas restritivas, o governo brasileiro sinaliza retaliar, taxando importações estadunidenses de forma proporcional. A retórica é de “reciprocidade”, mas a prática pode esconder ambiguidades.
A primeira questão é identificar se a medida é motivada por pragmatismo econômico ou por uma disputa simbólica. Historicamente, retaliações tarifárias tendem a escalar conflitos comerciais, como visto na guerra EUA-China, em que ambos os lados saíram perdendo. No caso brasileiro, a ênfase na “reciprocidade” parece ecoar um discurso de soberania, mas especialistas alertam: impor barreiras a produtos como combustíveis, tecnologia ou insumos industriais dos EUA pode elevar custos internos, pressionando inflação e afetando cadeias produtivas.
Há ainda um componente político ideológico. O governo Lula, ao criticar o legado de Trump e de Jair Bolsonaro (aliado do ex-presidente norte-americano), pode estar usando a retórica comercial para marcar posição em um cenário geopolítico polarizado. A pergunta que fica é: até que ponto a população será penalizada para sustentar uma narrativa de confronto?
Se por um lado a reciprocidade pode proteger setores específicos da economia brasileira, por outro, há riscos amplos. Empresas que dependem de importações dos EUA (como peças de máquinas agrícolas ou medicamentos) enfrentariam custos maiores, repassados aos preços finais. Além disso, o Brasil exporta muito mais para os EUA do que importa - um conflito aberto poderia resultar em retaliações mais duras, prejudicando agronegócio e indústria, setores que geram empregos.
Para a população, os efeitos seriam imediatos; inflação de produtos básicos, desaceleração econômica e possível desemprego em setores vulneráveis. O dólar mais alto, pressionado por incertezas, encareceria ainda mais viagens, remédios e eletrônicos. Em um país com milhões de pessoas em insegurança alimentar, medidas que oneram a cadeia de alimentos são especialmente delicadas.
Defensores da lei argumentam que o Brasil não pode se curvar a políticas unilaterais. No entanto, a história mostra que guerras comerciais raramente têm vencedores. A Organização Mundial do Comércio (OMC) registra que, entre 2018 e 2023, as tarifas de Trump reduziram o PIB global em 0,5%, com países em desenvolvimento entre os atingidos.
O governo federal precisa esclarecer: sua estratégia prioriza o diálogo multilateral ou opta por uma postura de confronto? Medidas de reciprocidade devem ser lastreadas em estudos técnicos, não em bravatas geopolíticas. A população não pode ser refém de um jogo em que ideologia e economia se confundem, ampliando desigualdades em nome de uma “guerra” cujas regras não são transparentes.
Enquanto o governo brasileiro e o norte-americano trocam ameaças, é urgente questionar quem realmente se beneficia. Se a lei da reciprocidade for implementada sem planejamento, transformará uma disputa comercial em uma crise social. A saída está na negociação, não na escalada. Afinal, em um mundo interdependente, retaliar pode ser tão perigoso quanto capitular. A pergunta que permanece é: até quando a população será tratada como moeda de troca em batalhas que não escolheu lutar?
(*) Estudante de Jornalismo
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