Dia do Surdo: jovens surdos e intérpretes buscam ar da inclusão

Dia 26 de setembro lembra criação da 1ª escola de surdos no Brasil

Por Portal de Notícias 26/09/2020 - 10:03 hs
Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
Dia do Surdo: jovens surdos e intérpretes buscam ar da inclusão
Dia do Surdo: jovens surdos e intérpretes buscam ar da inclusão

Integrante da nova geração da comunidade surda, Maurício Massouh nasceu em 1994, é digitalizador terceirizado no TJDFT e é universitário em Brasília. Tinha apenas 6 anos quando a Lei Nº 10.436, que oficializou a Língua Brasileira de Sinais, foi sancionada. Em 2008, já na adolescência, pôde presenciar a sanção da lei que estabelece o Dia Nacional do Surdo. Mas a memória do Dia do Surdo é bem mais antiga. Vem do século 19. Em 26 de setembro de 1857, o imperador Dom Pedro II fundou o Instituto Imperial de Surdos-Mudos por sugestão do professor francês Édouard Huet,. Mais tarde, passaria a se chamar Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines).
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Para Maurício, as conquistas legislativas, históricas e tecnológicas são importantes. E ele quer mesmo é se divertir e estar incluído como os jovens da idade dele. Maurício tem surdez profunda bilateral por causa de rubéola durante a gravidez da mãe dele. Mas isso não o impede de curtir músicas, dançar e escutar: “Uso aparelho auditivo, amo escutar músicas e, claro, dançar também [Risos]. Escutar é delícia [Risos]. Escuto falas e músicas com legendas sempre.” Na lista de músicas preferidas, estão Pabllo Vitar e alguns artistas do pop nacional e internacional. “O surdo poder fazer tudo! Pode dirigir, pode cantar, pode atuar em novelas”.

Ele faz questão de reforçar que, mesmo em 2020, ainda tem gente que chama surdo de surdo-mudo. “Isso é incorreto e ofensivo, né? Surdo pode falar e cantar sim. Ser surdo é apenas uma coisa que te impede de escutar sem aparelho auditivo ou implante coclear, mas ele tem voz, sim”, enfatiza.

Mãos e outros sentidos

Há 10 anos, Brenda Rodrigues resolveu aprender Libras om um amigo da igreja que frequentava | Arquivo pessoal



Quando estuda, Maurício e outros estudantes surdos contam com os tradutores-intérpretes. Parece que são apenas as mãos que se movem, em movimentos ora ligeiros, ora contemplativos. A energia dos dedos, em uma velocidade da luz dos olhares que acompanham, sai combinada com expressões que vão além dos dicionários. Os sons não estão apenas substituídos por palavras, mas por novos sentidos. Quem vê apenas mãos nessa interpretação-tradução nem imagina o que passa no esforço profissional-cidadão da pessoa nesse exercício de um código tão especial. Para a goiana Brenda Rodrigues, de 27 anos, intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), foi o encanto pela possibilidade de incluir outras pessoas que a fez mover dedos e coração ao mesmo tempo.
Há 10 anos, ela resolveu aprender com um amigo da igreja que frequentava. “Eu fui ficando encantada pelo o que eu aprendia. Minha tia também me ensinava”. Foi uma surpresa para o professor de Brenda quando ele perguntou na sala qual era o sonho profissional de cada um e ela disse que queria mesmo ser tradutora de libras. O professor ficou feliz e sugeriu vários cursos. O estímulo estava dado. Brenda, hoje, trabalha na Empresa Brasil de Comunicação e em um centro universitário em Brasília.
Outro grande momento dela foi quando, pela primeira vez, conseguiu traduzir uma informação para uma pessoa surda. Faltam até palavras em português para definir o que foi aquele momento. Os olhos emocionados descrevem, “Foi uma sensação de satisfação poder transmitir para pessoa algo. Eu não acho que tenha palavras para descrever isso”. Justo ela, tradutora, que sabe de uma responsabilidade que é mais do que um substantivo. “Saber que uma pessoa compreendeu é, de fato, um sentimento de dever cumprido. Ser intérprete é como fazer um juramento máximo de passar a informação a alguém”.
Para ela, a língua de sinais é um aprendizado constante. Inclusive, durante a reportagem, Brenda participou de uma conversa com o pesquisador e professor surdo Messias Ramos Costa, doutorando em linguística. “Foi uma grande emoção porque ele foi meu primeiro professor de libras há 11 anos”. Um idioma novo, uma cultura nova em que não se pode parar de pesquisar.
Nem pesquisar nem de sentir. Brenda tem as palavras preferidas em libras. “O sinal de compaixão é muito forte porque é como se você tivesse os seus sentimentos trocados com a da outra pessoa (assista a vídeo abaixo). É como se você tivesse pegando o sentimento dela e colocando em você. O sinal de obrigada é uma mão aqui na testa e outra aqui no peito. Eu acho lindo”.
Traduzir é um trabalho puxado. Com os universitários, aprendeu, durante a pandemia aulas de diferentes disciplinas para gravar a interpretação das aulas a distância e enviar. Ela não para. Ao vivo, não é possível porque, quando o professor faz a apresentação, não sobra janela para que ela fique em destaque para alunos surdos. Por isso, a aula vira uma tarefa de casa.
Na EBC, é uma das tradutoras das entrevistas coletivas, evento e pronunciamentos de integrantes do governo federal. Para isso, fica à disposição porque a urgência pode chegar a qualquer momento. “MInhas colegas me ajudam muito a melhorar. Vamos para o estúdio, assistimos e interpretamos ao mesmo tempo. Na primeira vez, foi frio na barriga e uma tremedeira nas pernas. Ainda bem que a câmera não mostra”, sorri.
Sempre ao final de um evento, costuma assistir aos vídeos para se autocriticar. Os telespectadores também já a reconheceram depois de eventos. “ O importante é que a informação está chegando em quem precisa ser incluído. É muito gratificante ter o retorno, como de assuntos importantes para toda a Nação. Bom saber, por exemplo, que uma pessoa conquistou um direito e eu pude também participar da informação”.

Antenada

Maranhense, Karen Elysee é a primeira surda em sua família e concorda com Brenda sobre a necessidade de todos estarem conectados a uma frequência cultural.  De acordo com a jovem de 22 anos, não basta ao intérprete saber os sinais, é preciso que ele esteja inserido no contexto do idioma. “Quando o intérprete tem o domínio da língua, o surdo consegue entender melhor em lugares como a escola, por exemplo”. Aliás, foi a escola que em Brasília “mudou a vida” dela. “Eu consegui evoluir. Tive mais interações, mais informação”.
Para se comunicar com os parentes mais próximos e amigos ouvintes, utiliza aplicativos de celular que trazem intérpretes voluntários. O primeiro contato, contudo, costuma ser pela escrita. “O ouvinte pensa que é normal a escrita, mas se ele quer aprender algum sinal, eu sempre busco ensinar um pouco.
Assim que se formar, planeja criar uma empresa de jornalismo e publicidade voltada para o público surdo, nos moldes da TV Ines, que considera uma inspiração. Mas também sonha em estudar fora do país, na única universidade com um programa educacional voltado especificamente para pessoas surdas, a Universidade Gallaudet, localizada em Washington, nos Estados Unidos.
“Quando tem ouvinte e surdo em grupos de whatsapp, o ouvinte tem mania de mandar áudio. E a gente fica sem saber o que está acontecendo. Então, o ouvinte tem que estudar como funciona a comunidade surda”. Estão todos juntos, em busca de novos sentidos e sonhos, palavras universais que cabem bem nos dois idiomas.

Entrevista
NÃO SE DEVE MENOSPREZAR A CAPACIDADE DE UM SURDO, DIZ PESQUISADOR

Entre livros, aulas e pesquisas, Messias Ramos Costa se prepara para defender seu doutorado em Linguística, pela Universidade de Brasília (UnB). Enquanto trabalha e participa da entrevista com a Agência Brasil sobre o Dia Nacional dos Surdos, seu cão lhe indica que há alguém batendo na porta. É assim que dribla a falta de audição enquanto comenta sobre o intercâmbio que realiza em Lisboa para que sua pesquisa seja contemplada. “Minha proposta é fazer um projeto mundial de interação entre os países na área de linguística em línguas de sinais.”
Na conversa por videoconferência, Messias conta não sobre a  importância do Dia Nacional do Surdo, mas analisa como a comunidade surda passou a ter, cada vez mais, lideranças para lutar por seus direitos.
A rotina de Messias é alternada entre as dificuldades de comunicação ao ir a um banco ou pela novidade de poder consultar com o médico com a participação de um intérprete por meio de um aplicativo de celular. “Antes havia muita confusão, mas devido à luta da comunidade surda, a gente consegue. Fico muito feliz de ter conseguido ter essa interação na  área de saúde.”
Ele foi o primeiro professor substituto da disciplina Língua de Sinais Brasileira (LSB), no Curso de Letras do Departamento de Linguística, onde dá aulas há mais de dez anos. Até chegar a um currículo extenso de estudos, voluntariado e projetos premiados, teve que enfrentar uma trajetória onde não havia diretrizes de acessibilidade aos surdos. Da infância à adolescência, cresceu sendo oralizado até que conheceu a  Língua Brasileira de Sinais (Libras) aos 17 anos. “Foi então que eu comecei a me enturmar com a sociedade. Por mais que houvesse desafios, eu conseguia vencer”.

Qual a importância do Dia Nacional dos Surdos, garantida por uma lei de 2008?
Messias Ramos Costa: É de extrema importância ter o Dia da pessoa surda, da identidade e cultura surda.Esse dia foi criado no o INES [O Instituto Nacional de Educação de Surdos foi criado em 26 de setembro de 1857, sendo a primeira instituição de ensino do tipo], no estado do Rio de janeiro, e se espalhou pelo Brasil. O surdo francês Huet  [Messias mostra o sinal identificativo de Huet em Libras] veio para o Brasil e começou a ensinar a língua de sinais para as crianças surdas  e fez a divulgação da língua por todos os estados do Brasil. Ele foi a liderança da luta e movimentos da língua de sinais. Por isso é importante ter o dia do surdo, para lembrar a história e agradecer a essa pessoa, Huet, que alavancou a luta e possibilitou melhorias nas políticas de acessibilidade em diferentes estados do Brasil.

Diante de tantos desafios e dificuldades que o surdo enfrenta, como foi se tornar professor e pesquisador?
Messias Ramos Costa :Eu lembro quando eu era criança fui ensinado a oralizar e tinha várias barreiras na comunicação não me sentia bem, tinha várias dificuldades, não havia comunicação. Com o tempo,  aprendi a língua de sinais, comecei a aprender com 17 anos. Ali eu comecei a ter aquisição da língua e da sociedade surda e progredi, me sentia melhor. Eu me esforcei, a língua de sinais me auxiliou muito em diferentes coisas, na informação, no aprendizado eu tinha um entendimento certo das coisas. Eu tinha uma identidade, a identidade surda. Tive autonomia no aprendizado em correr atrás, pedagogia, também fiz magistério, depois fiz o curso de Letras - Libras, depois fiz a pós-graduação e o mestrado em Linguística pela UnB [Universidade de Brasília] e ali  fui adquirindo mais consciência. Faz dez anos que trabalho como professor pela UnB. Um líder que me ensinou, o Antônio Campos [faz o sinal dele em Libras] me aconselhou que eu me desafiasse a ter experiências novas. Isso foi  se somando ao longo dos anos, e consegui vencer todas essas barreiras.

O senhor é exemplo para muita gente por ter chegado aonde chegou. O que mudou para surdo ao longo da sua trajetória?
Messias Ramos Costa: O principal da minha história é que não tinha lei, pelo não tinha a lei de 2002 de Libras. Então, até ali era muito difícil porque, dentro das escolas, não tinha inclusão, nada disso. Hoje é diferente, já tem atendimento em português como segunda língua. O surdo consegue ter uma aquisição melhor, ele consegue aceitar melhor sua identidade surda. Ele consegue vencer. O surdo hoje tem referências de líderes para copiar e aprender. Hoje é mais possível se sobressair. O surdo é capaz, ele consegue, ele luta, ele se acredita como pessoa com a sua identidade surda com a sua própria língua. Alguns jovens que estão crescendo amam aprender, ter essas novas experiências e eu tenho orgulho de poder ajudá-los.

Temos duas leis importantes para a comunidade surda, a de Libras em 2002 e do Dia Nacional do Surdo, em 2008. Quais desafios para que essas leis sejam mais valorizadas?
Messias Ramos Costa: Essas são leis principais porque ajudam muito na luta da comunidade surda, na luta de diferentes áreas e diretrizes. Por exemplo, na área da escola, de saúde e trabalho. Essa  comunicação é essencial, manter esse contato, essa interação entre a sociedade. É um direito do surdo se comunicar. É importante evitar oprimir, menosprezar a capacidade, a inteligência de um surdo. E essa lei trouxe essa segurança de dar direitos a esses valores da comunicação. Temos também a LBI [Lei Brasileira de Inclusão]  que hoje precisa de alguns ajustes para ajudar a  comunidade na área da linguística. 

Quais são seus desafios diários como cidadão?
Messias Ramos Costa: Sempre estou em diferentes lugares utilizando Libras. Nisso, falta acessibilidade de comunicação nos hospitais, nos bancos. Mas, aos poucos, vai se aumentando essa inclusão. Futuramente, essa questão de sentir-se oprimido por causa da comunicação deve diminuir. Exemplo pessoal: no ano passado fui no hospital e foi muito difícil me comunicar  com alguém. Hoje não, hoje eu consigo usando um aplicativo que coloca o profissional e o intérprete e permite a comunicação com o médico por meio das Libras. Então, estou muito  feliz de ter conseguido ter essa interação na área de saúde. Antes havia muita confusão, mas devido à luta da comunidade surda, a gente consegue.

Hoje já temos surdos em um cargo de alto escalão do governo. Como o senhor avalia a inclusão da comunidade surda no mercado de trabalho?
Messias Ramos Costa: É importantíssimo ter uma representante surda dentro do governo pois isso mostra como, por exemplo, a Priscila Aguiar [atual secretária de Inclusão da Pessoa com Deficiência] e outras pessoas que estão no Ministério da Educação, a Cristiane, mostram que ...dentro do governo, precisa esse vĩnculo de comunicação. É importante a inclusão da pessoa surda nesse governo. Mostrar que o surdo tem o direito de mostrar os seus valores a comunicação.

Agência Brasil








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