João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A livraria
Da Cultura à Paisagem, a paisagem cultural permanece encantadora e convidativa

João Adolfo Guerreiro
Ah, climazinho gostoso amanheceu nesta sexta-feira! Xô calorões! Agora sim, voltamos à vida como ela é boa de ser vivida! Dá até um novo ânimo, um tesão diferente pra escrever. Salve, outono!
Pois como escrevi ontem, fui a Porto Alegre para um tour literário. Resolvi ir na antiga Livraria Cultura no Shopping Bourbon Country, minha preferida. Agora, em seu lugar, desde 2024, está a Livraria Paisagem (foto acima), aproveitando toda a estrutura deixada pela antiga locatária do espaço, inclusive com a mesma disposição dos livros e política de atendimento e conforto ao comprador. Conhecem essa história?
Bom, resumindão: a origem da Livraria Cultura data de 1947, quando a senhora Eva Herz resolveu comprar dez livros em alemão para alugar aos, como ela, judeus alemães que vieram para o Brasil devido à Segunda Guerra, fugindo dos nazistas, residentes em São Paulo. A ideia, batizada de Biblioteca Circulante, visava ajudar o marido Kurt nas finanças domésticas. A coisa se criou, Eva comprou mais livros e, depois de um tempo, passou a vender. Em 1969, junto com o filho Pedro, de 29 anos (que desde os 7 acompanhava os negócios da mãe), resolveu sair de casa e montar uma livraria no centro da cidade, denominando-a de Cultura. E a empresa continuou se criando, até chegar aos seus 70 anos, em 2017, somando 17 lojas em todo o Brasil, com mais de 1.500 funcionários atendendo a cinco milhões de clientes. Pedro lançou o livro O Livreiro (Planeta do Brasil, 2017, 218p.), contando essa história. No mesmo ano, em julho, a Cultura comprou as lojas da livraria francesa FNAC no Brasil, absorvendo mais 12 lojas e 600 empregados. O crescimento, somado à crise brasileira no período, à retração da venda de livros impressos e à concorrência predatória da Amazon, fez com que o "caminhão carregado" atolasse e não conseguisse ir pra frente e, já no ano seguinte, em 24 de outubro, a empresa entrou em recuperação judicial. A Cultura acabou somando dívidas de 285 milhões de reais, perdeu suas mega-stores e, hoje, conta apenas com duas lojas em São Paulo, nos bairros Higienópolis e Pinheiros, resistindo bravamente para completar, ativa, seus 80 anos, em 2027. Pedro Herz faleceu em março do ano passado, de infarto, aos 84 anos, mas a livraria já era gerida pelos seus filhos desde 2011, com o fundador participando do Conselho Administrativo.
O prédio da foto acima, a mega-loja de Porto Alegre no Shopping Bourbon Country, foi inaugurada em 2003, sendo a primeira fora se São Paulo da Cultura. Em 2023 virou brevemente a Book Hall, onde a Cultura e mais cinco editoras dividiam o espaço. Como disse, agora a Paisagem manteve tudo como era, até o dragão do espaço infantil permanece (foto abaixo), além das estantes circulares. Os livrões caríssimos (nos dois sentidos) de arte, nacionais e importados, da Taschen no segundo piso, à direita, logo após subirmos a primeira escadaria, e os livros de Humanas, em especial os da editora Boi Tempo, à esquerda, do outro lado.
A gente entra e pode ficar o dia inteiro lá dentro, da manhã à noite, uma festa para os amantes desse objeto cultural denominado livro impresso, essa beleza mui prática criada há quase 600 anos por Gutenberg.Tu podes sentar, em cada um dos pisos, em confortáveis poltronas e ler os livros de sua preferência, escolhendo quais comprará. Tem uma cafeteria interna com mesinhas e por cada uma das duas escadas tu podes subir para o segundo piso onde há, inclusive, uma ponte suspensa. Linda, um templo do livro. Não conheci a de São Paulo, com três pisos, que um impressionado Saramago chamou de "obra de arte" em um de seus livros. Uau syl! Hoje aquele espaço é ocupado pela Magalu, ainda vendendo livros. Confesso que sinto uma nostalgia dos felizes tempos da Cultura, torço para que a empresa se reerga.
A Book Hall não era tri, eram cinco caixas, um pra cada editora, cada um com suas políticas de pagamento e cartões que aceitava. Na Paisagem tudo voltou ao "normal", ou seja, como era nos tempos da Cultura: tu encontras de tudo e, depois, metes um Banri débito na maquininha e pode parcelar o que escolheu, se quiser. Mega adequado para qualquer contracheque, um lazer cultural acessível à qualquer pessoa. Hipermegasuperhiper recomendo uma ida à Livraria Paisagem, que retomou dignamente as atividades livreiras naquele encantador e convidativo espaço cultural, legado do sonho concretizado por três gerações dos Herz.
Um bom final de semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, leiam, vivam e fiquem com Deus.
COMENTÁRIOS